há vinte anos em delírio. da praia para o mundo. o vento está de cima para baixo. vai.
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12 março 2011
10 fevereiro 2011
metamorfose
eu de noite tenho medo
do vento que sopra
das folhas que caem
o homem forte grita
o lobo e as crianças a chorar
a noite é escura e adormece
a lua fala com o vento
eu de noite
enrolo pedras da tentação
o fogo aspira tudo
vendaval de ideias
sede e saudade escuridão
eu de noite
penso virando tudo
derrotado amedrontado
alucinado revoltado
mas é de noite que sou eu
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
eu de noite tenho medo
do vento que sopra
das folhas que caem
o homem forte grita
o lobo e as crianças a chorar
a noite é escura e adormece
a lua fala com o vento
eu de noite
enrolo pedras da tentação
o fogo aspira tudo
vendaval de ideias
sede e saudade escuridão
eu de noite
penso virando tudo
derrotado amedrontado
alucinado revoltado
mas é de noite que sou eu
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
09 fevereiro 2011
relato completo
escola e mãe
mãe escola
da escola mãe
guardo tudo na
minha viola
não toca a viola
não tem cordas
nem tenho viola
nem quero escola
nem quero mãe
sou escola viola mãe
mãe da escola e de viola
não é ninguém ninguém
ninguém ninguém
eu quero a minha mãe
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
escola e mãe
mãe escola
da escola mãe
guardo tudo na
minha viola
não toca a viola
não tem cordas
nem tenho viola
nem quero escola
nem quero mãe
sou escola viola mãe
mãe da escola e de viola
não é ninguém ninguém
ninguém ninguém
eu quero a minha mãe
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
08 fevereiro 2011
maio
pano vermelho rasgado
a nossa bandeira viva
é assim que vivem os homens
olhando o oceano perdidos
o hálito da boca sem rumo
a violência do trabalho primeiro
ainda que viva em mim
o que resta do olhar
já não há vontade
aonde o silêncio vença as distâncias
as palavras devoram o norte do olhar
antes fugir da serpente ameaçadora
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
pano vermelho rasgado
a nossa bandeira viva
é assim que vivem os homens
olhando o oceano perdidos
o hálito da boca sem rumo
a violência do trabalho primeiro
ainda que viva em mim
o que resta do olhar
já não há vontade
aonde o silêncio vença as distâncias
as palavras devoram o norte do olhar
antes fugir da serpente ameaçadora
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
07 fevereiro 2011
embriaguês implacável
a lutar na vida amanhã
sentir frio
ficar curvado
na esquina e à chuva
casaco nas costas
camisa roubada ao peito
janelas sem sol
os sapatos de fivela esperta
o mesmo banco amigo
fico sentado ao contrário
escrevo para mim
no destino que o
horizonte nos atrái
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
a lutar na vida amanhã
sentir frio
ficar curvado
na esquina e à chuva
casaco nas costas
camisa roubada ao peito
janelas sem sol
os sapatos de fivela esperta
o mesmo banco amigo
fico sentado ao contrário
escrevo para mim
no destino que o
horizonte nos atrái
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
06 fevereiro 2011
do corpo ao abismo
aquela velha à janela
olha a rua da sua infância
chora ri e reza
a vida passou e a tristeza
ainda ontem foi criança
os braços cruzados os olhos sem brilho
os dias passados
família amor desgraça
alegria sem nada
restos guardados
levar tudo para longe
a porta do lado de cá de lá
espera espera
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
aquela velha à janela
olha a rua da sua infância
chora ri e reza
a vida passou e a tristeza
ainda ontem foi criança
os braços cruzados os olhos sem brilho
os dias passados
família amor desgraça
alegria sem nada
restos guardados
levar tudo para longe
a porta do lado de cá de lá
espera espera
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
05 fevereiro 2011
trás-os-montes
entre a planície e a montanha
a massa informe das rochas seculares
pequenas coisas se ordenam
por estradas longínquas
o pão duro rasgado no peito
a fome insuportável e penosa
o meu quadro no cadafalso
silêncio a memória dessas casas assombradas
os fantasmas dos lobos sem donos
a tortura da manhã em manhã
rasgo tudo para mim
quando as sombras da memória
revoltado neste labirinto
colecciono prolongamentos
retorno ali à sepultura
dos antepassados nada
penetrando e descendo
ao ventre da minha árvore
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
entre a planície e a montanha
a massa informe das rochas seculares
pequenas coisas se ordenam
por estradas longínquas
o pão duro rasgado no peito
a fome insuportável e penosa
o meu quadro no cadafalso
silêncio a memória dessas casas assombradas
os fantasmas dos lobos sem donos
a tortura da manhã em manhã
rasgo tudo para mim
quando as sombras da memória
revoltado neste labirinto
colecciono prolongamentos
retorno ali à sepultura
dos antepassados nada
penetrando e descendo
ao ventre da minha árvore
Luís Paulo Meireles
in auge do ritual
non nova sed nove, nazaré, outubro 1997
04 fevereiro 2011
21 dezembro 2010
ressaca d' ontem
estou farto de tudo, de derrotas e vitórias que só o são porque é assim que querem ser vistas, farto de idiotices sem qualquer função a não ser esperar pela derrota que se segue e virá-la e revirá-la, transformar a merda em risos, a mentira em verdade e a derrota em vitórias. preciso de uma bebedeira, dum charro, para me esquecer que a cobardia é grande e que por isso é preciso viver.
mas não posso beber a ver se meto um comprimido e consigo dormir. porque a noite ainda não começou e já é longa a espera, porque se adivinha tormentosa e pronto lá meti a cápsulazita da ordem.
entro na atmosfera orbital, lá onde a calmaria mete nojo e pronto trocou-se o sentir de revolta pela derrota.
Luís Paulo Meireles
in algemas d' aço
non nova sed nove, nazaré, janeiro 97
estou farto de tudo, de derrotas e vitórias que só o são porque é assim que querem ser vistas, farto de idiotices sem qualquer função a não ser esperar pela derrota que se segue e virá-la e revirá-la, transformar a merda em risos, a mentira em verdade e a derrota em vitórias. preciso de uma bebedeira, dum charro, para me esquecer que a cobardia é grande e que por isso é preciso viver.
mas não posso beber a ver se meto um comprimido e consigo dormir. porque a noite ainda não começou e já é longa a espera, porque se adivinha tormentosa e pronto lá meti a cápsulazita da ordem.
entro na atmosfera orbital, lá onde a calmaria mete nojo e pronto trocou-se o sentir de revolta pela derrota.
Luís Paulo Meireles
in algemas d' aço
non nova sed nove, nazaré, janeiro 97
20 dezembro 2010
textos d'ontem
lá fora o sol, aqui o ar é forçado, o sono, o cansaço, os olhos fechados, os joelhos dobrados e os braços descaídos, como numa visão angustiante do reflexo dos sentidos.
a verdade ainda não tem luz verde, louco dia a lutar em ser original, a euforia, um edifício, o escritório, os computadores, as secretárias, as coisas são todas necessárias, não funcionam porém, foram-se embora, ficaram restos, cheiros, sabões, ondas, fogo, cadastro, dinheiro, tudo junto, silêncio.
jovens e velhos do bairro apanham lixo para comer, não têm tostões nem frio nem nada, tantas carraças, aqui sem rumo nem destino, não existe pior que a miséria d'um homem sem brilho nos olhos.
o mar abraça o meu quarto, rodeado dum vento forte mas invisível, atrasado, rival ruína espontânea, azul, verde, preto côr d'ódio por digerir, os deuses, os minutos, o pensamento tenta acalmar nas águas do rio, do rio da minha infância.
Luís Paulo Meireles
in algemas d' aço
non nova sed nove, nazaré, janeiro 97
lá fora o sol, aqui o ar é forçado, o sono, o cansaço, os olhos fechados, os joelhos dobrados e os braços descaídos, como numa visão angustiante do reflexo dos sentidos.
a verdade ainda não tem luz verde, louco dia a lutar em ser original, a euforia, um edifício, o escritório, os computadores, as secretárias, as coisas são todas necessárias, não funcionam porém, foram-se embora, ficaram restos, cheiros, sabões, ondas, fogo, cadastro, dinheiro, tudo junto, silêncio.
jovens e velhos do bairro apanham lixo para comer, não têm tostões nem frio nem nada, tantas carraças, aqui sem rumo nem destino, não existe pior que a miséria d'um homem sem brilho nos olhos.
o mar abraça o meu quarto, rodeado dum vento forte mas invisível, atrasado, rival ruína espontânea, azul, verde, preto côr d'ódio por digerir, os deuses, os minutos, o pensamento tenta acalmar nas águas do rio, do rio da minha infância.
Luís Paulo Meireles
in algemas d' aço
non nova sed nove, nazaré, janeiro 97
19 dezembro 2010
18 dezembro 2010
06 dezembro 2010
cidade lisboa
a cidade acordou cedo, saem os defeitos, lá fora a velha louca fala sem parar, a sujidade. o rolar pelas ruas, a cidade rolou, o poço cada vez é mais fundo, o balde d'merda vazio, a corda, o vizinho fugiu, à vista ninguém, o riso, o choro, o padre a falar na avenida prostituída da vida, a água cheira a podre, as fezes nas sarjetas ensanguentadas, as escovas dantes varriam tudo, os pés sujos, descalços no alcatrão, refeições no refeitório selvagem, tudo podre, poeira, ar, e não perder nada da triste e vazia cidade.
entre algemas d'aço ouvi tantos gritos, fizeram, disseram e eram, conheci melhor ali tudo o que sou e senti, o cheiro aterrador tantos malditos diga esses.
e ninguém nos vem dizer adeus, e nunca mais voltes, esqueci-me de tudo e uma bebedeira foi a barreira.
no autocarro, no banco traseiro, vou sozinho no meio de tanta gente, é bom sermos heróis para nós próprios, esta é uma história d'uma viagem, tantas vezes senti perto de mim tanta gente só que naquele dia tudo foi diferente, não havia ninguém, seguia sozinho no autocarro, sentia-me dono de tudo era só eu que seguia, no entanto era estranho porque isto nunca aconteceu antes, não havia barulho de gente, nem cheiros de corpos suados de mais um cansado dia de trabalho para não sofrer, tantas vezes me enjoei disto tudo, de conversas só sobre a revolta e a miséria, estava tudo tão diferente e escuro, na minha cabeça uma visão violenta e um riso diabólico não me assustava, mas no fundo, no fundo estava com medo por ali estar sozinho, sentia-me desprotegido, mais esta maldita espera, o tempo, a milhares anos-luz, o pensamento, tanta miséria, arrepia, olhando lá fora, nada, chove, chove muito, maldita viagem nunca mais chega ao fim, o sangue é veneno e a água queima, sem luz tudo é desinteressante, tudo é humano, podre, a viagem terminou comigo a acordar com as batidas dum homem qualquer no vidro do autocarro, que não me lembro de apanhar em algum lugar.
Luís Paulo Meireles
in non nova sed nove, nº9, setembro 96
a cidade acordou cedo, saem os defeitos, lá fora a velha louca fala sem parar, a sujidade. o rolar pelas ruas, a cidade rolou, o poço cada vez é mais fundo, o balde d'merda vazio, a corda, o vizinho fugiu, à vista ninguém, o riso, o choro, o padre a falar na avenida prostituída da vida, a água cheira a podre, as fezes nas sarjetas ensanguentadas, as escovas dantes varriam tudo, os pés sujos, descalços no alcatrão, refeições no refeitório selvagem, tudo podre, poeira, ar, e não perder nada da triste e vazia cidade.
entre algemas d'aço ouvi tantos gritos, fizeram, disseram e eram, conheci melhor ali tudo o que sou e senti, o cheiro aterrador tantos malditos diga esses.
e ninguém nos vem dizer adeus, e nunca mais voltes, esqueci-me de tudo e uma bebedeira foi a barreira.
no autocarro, no banco traseiro, vou sozinho no meio de tanta gente, é bom sermos heróis para nós próprios, esta é uma história d'uma viagem, tantas vezes senti perto de mim tanta gente só que naquele dia tudo foi diferente, não havia ninguém, seguia sozinho no autocarro, sentia-me dono de tudo era só eu que seguia, no entanto era estranho porque isto nunca aconteceu antes, não havia barulho de gente, nem cheiros de corpos suados de mais um cansado dia de trabalho para não sofrer, tantas vezes me enjoei disto tudo, de conversas só sobre a revolta e a miséria, estava tudo tão diferente e escuro, na minha cabeça uma visão violenta e um riso diabólico não me assustava, mas no fundo, no fundo estava com medo por ali estar sozinho, sentia-me desprotegido, mais esta maldita espera, o tempo, a milhares anos-luz, o pensamento, tanta miséria, arrepia, olhando lá fora, nada, chove, chove muito, maldita viagem nunca mais chega ao fim, o sangue é veneno e a água queima, sem luz tudo é desinteressante, tudo é humano, podre, a viagem terminou comigo a acordar com as batidas dum homem qualquer no vidro do autocarro, que não me lembro de apanhar em algum lugar.
Luís Paulo Meireles
in non nova sed nove, nº9, setembro 96
19 outubro 2010
Sonho
o chão fugiu com a noite
a cabeça desertou
com a vida
a dor
o sangue
o ódio
dos olhos
então?! acorda então?!
o sonho na noite
a tarde arde
onde me esconder
fumo fumo e fumo
chorar acordar
não vamos rir sem sentir
os dias afogam a noite
pobre a fome da amante rica
vais-me deixar
palavras letras eu
este sabor a desejo
livra-me da vida
que levei e lavei
acordei sonhei
Luís Paulo Meireles
in non nova se nove, nº 7, dezembro 95
o chão fugiu com a noite
a cabeça desertou
com a vida
a dor
o sangue
o ódio
dos olhos
então?! acorda então?!
o sonho na noite
a tarde arde
onde me esconder
fumo fumo e fumo
chorar acordar
não vamos rir sem sentir
os dias afogam a noite
pobre a fome da amante rica
vais-me deixar
palavras letras eu
este sabor a desejo
livra-me da vida
que levei e lavei
acordei sonhei
Luís Paulo Meireles
in non nova se nove, nº 7, dezembro 95
09 setembro 2010
05 setembro 2010
poema sem data
bonito sonho a viajar
a mão forçada da beleza
voar lentamente
e apodrecer
lutar por amor
no ódio de vencer
cemitério
este adultério
natureza do paraíso
no inferno
e os canibais engravatados
aonde o homem é ser incerto
fogem cobardemente
por detrás dos
seus reais travestis
Luís Paulo Meireles
Homem Sem Nome
non nova sed nove, nazaré 1993
bonito sonho a viajar
a mão forçada da beleza
voar lentamente
e apodrecer
lutar por amor
no ódio de vencer
cemitério
este adultério
natureza do paraíso
no inferno
e os canibais engravatados
aonde o homem é ser incerto
fogem cobardemente
por detrás dos
seus reais travestis
Luís Paulo Meireles
Homem Sem Nome
non nova sed nove, nazaré 1993
04 setembro 2010
03 setembro 2010
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