poema manuscrito de José Luís Peixoto
que, tal como as anteriores páginas, nunca chegou a ser publicado
a revistazine devia ter saído em 1998 mas, acabou por ficar em arquivo
há vinte anos em delírio. da praia para o mundo. o vento está de cima para baixo. vai.
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09 março 2011
10 janeiro 2011
(noite)
aprendo pouco nos meus erros
na luz que diminui sobre mim
negro fundo de metros na
carne e dentro da exaustão interior
(noite)
nos meus erros uma venda opaca
grossa de frio gela esconde
o bebível do teu silêncio sorriso
(noite)
aprendo pouco na chuva nocturna
que me escolheu na culpa que
me preenche do pior abandono
nos meus erros aprendo noite
na noite aprendo o lugar
insuportável de não aprender nada
aprendo palavras impossíveis
de dizer e aprender
aprendo perguntas
?
sem resposta
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 1997
aprendo pouco nos meus erros
na luz que diminui sobre mim
negro fundo de metros na
carne e dentro da exaustão interior
(noite)
nos meus erros uma venda opaca
grossa de frio gela esconde
o bebível do teu silêncio sorriso
(noite)
aprendo pouco na chuva nocturna
que me escolheu na culpa que
me preenche do pior abandono
nos meus erros aprendo noite
na noite aprendo o lugar
insuportável de não aprender nada
aprendo palavras impossíveis
de dizer e aprender
aprendo perguntas
?
sem resposta
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 1997
09 janeiro 2011
não posso encontrar mais
que as nossas vozes
entrançadas onde não
posso encontrar mais
que o nosso tempo
recortado do tempo todo
do silêncio das palavras
da manhã do dia em
que não posso encontrar
mais que o teu rosto
que o teu rosto que
a brisa breve e definitiva
do teu rosto na espiral
constante de te amar e
te sofrer noites insones
de não posso encontrar
mais que e não posso
encontrar mais que o
teu sorriso discreto o
círculo do teu olhar e
em duelo comigo próprio
não posso encontrar mais
que a nave perdida o jardim
das palavras que te tentam
do silêncio da manhã do
dia em que não posso
encontrar mais que as
nossas vozes entrançadas
porque não posso encontrar
mais não posso encontrar
mais
não quero
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 1997
que as nossas vozes
entrançadas onde não
posso encontrar mais
que o nosso tempo
recortado do tempo todo
do silêncio das palavras
da manhã do dia em
que não posso encontrar
mais que o teu rosto
que o teu rosto que
a brisa breve e definitiva
do teu rosto na espiral
constante de te amar e
te sofrer noites insones
de não posso encontrar
mais que e não posso
encontrar mais que o
teu sorriso discreto o
círculo do teu olhar e
em duelo comigo próprio
não posso encontrar mais
que a nave perdida o jardim
das palavras que te tentam
do silêncio da manhã do
dia em que não posso
encontrar mais que as
nossas vozes entrançadas
porque não posso encontrar
mais não posso encontrar
mais
não quero
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 1997
07 janeiro 2011
não me importo de estar aqui
estou aqui não me importo
de esperar que o tempo passe
esperando vejo o tempo que
nos unirá e vejo que não passa o
tempo este tempo não passa segundo a
segundo não passa minuto a
minuto e passam horas e
não passam os segundos não passa o
tempo que nos unirá e
não me importo de estar aqui
estou aqui não me importo
que o tempo não passe de cada
vez que passa não me importo
sei que virás
espero-te
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 1997
estou aqui não me importo
de esperar que o tempo passe
esperando vejo o tempo que
nos unirá e vejo que não passa o
tempo este tempo não passa segundo a
segundo não passa minuto a
minuto e passam horas e
não passam os segundos não passa o
tempo que nos unirá e
não me importo de estar aqui
estou aqui não me importo
que o tempo não passe de cada
vez que passa não me importo
sei que virás
espero-te
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 1997
06 janeiro 2011
delírio lírio rio
distante
caminha em ti meu nosso medo
sonâmbulo e minha última
esperança nocturna
delírio noite adormecido
distante
num lugar de espiral
este nosso sonho sono apenas
lírio fino branco
distante
para lá do teu nosso peito
enleado nas trevas de ti
meu nosso medo
rio puro puro
distante
limpo de céu entre margens
de penumbra
perpétua
e perpétuo e definitivo e
distante
intransponível de fundo de
distante
rio lírio delírio
distante
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 97
distante
caminha em ti meu nosso medo
sonâmbulo e minha última
esperança nocturna
delírio noite adormecido
distante
num lugar de espiral
este nosso sonho sono apenas
lírio fino branco
distante
para lá do teu nosso peito
enleado nas trevas de ti
meu nosso medo
rio puro puro
distante
limpo de céu entre margens
de penumbra
perpétua
e perpétuo e definitivo e
distante
intransponível de fundo de
distante
rio lírio delírio
distante
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 97
04 janeiro 2011
e repito fosse teu rosto marítimo noite
entre as noites apagadas de céu
e não seria mais luz que
essa neblina doce doce entornado
na sede fome da minha boca
essa saudade espalhada em todos
os caminhos de navegar
essa maresia branca branca
que beijo ao beijar-te
e repito tudo é o dia que és
a aurora mergulhada no teu sorriso
o sumo o sol brando nas marés do teu rosto
o ondular manso pele espuma alva
e dizendo-te
repito mar
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 97
entre as noites apagadas de céu
e não seria mais luz que
essa neblina doce doce entornado
na sede fome da minha boca
essa saudade espalhada em todos
os caminhos de navegar
essa maresia branca branca
que beijo ao beijar-te
e repito tudo é o dia que és
a aurora mergulhada no teu sorriso
o sumo o sol brando nas marés do teu rosto
o ondular manso pele espuma alva
e dizendo-te
repito mar
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 97
03 janeiro 2011
tenho aquela que me olha e que olho
e misturamo-nos como brisas e
silêncios e digo tenho aquela que
me vê e ela olha-me e tudo o
que somos é uma partilha uma
mistura e digo diz e aquela que
tenho beija-me num olhar e num
silêncio que não posso dizer
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 97
e misturamo-nos como brisas e
silêncios e digo tenho aquela que
me vê e ela olha-me e tudo o
que somos é uma partilha uma
mistura e digo diz e aquela que
tenho beija-me num olhar e num
silêncio que não posso dizer
José Luís Peixoto
in a pele branca do teu silêncio
non nova sed nove, nazaré, março 97
31 dezembro 2010
02 dezembro 2010
25 outubro 2010
24 outubro 2010
Uns corpos fumegantes
Uns corpos fumegantes, como todos,
cabem um no outro...
...engolidos, rasgados, num ópio
que há muito o deixou de ser...
Corpos fumegantes, sem fogo, inebriados
pelo sangue que escorria em cascata
e que dissolvia o rude basalto
...cabiam um no outro,
fumegantes...
José Luís Peixoto
in non nova sed nove, nº7, dezembro 95
Uns corpos fumegantes, como todos,
cabem um no outro...
...engolidos, rasgados, num ópio
que há muito o deixou de ser...
Corpos fumegantes, sem fogo, inebriados
pelo sangue que escorria em cascata
e que dissolvia o rude basalto
...cabiam um no outro,
fumegantes...
José Luís Peixoto
in non nova sed nove, nº7, dezembro 95
22 outubro 2010
A prostituta velha e suja
A prostituta velha e suja
despe-se à frente do polícia.
A estátua branca cai do pedestal.
O tempo escorre pelas ruas
da cidade, grosso e sereno.
A prostituta, cada vez mais velha,
esmaga o polícia entre as pernas.
No céu, voa um balão com
a forma da lua que
se arrasta vagarosamente,
sem olhar para baixo.
A prostituta amada e não-amada
toma um duche rápido.
O sol cresce em direcção
às gentes que correm nas avenidas.
A estátua branca, desfeita
no chão, chora.
O tempo escorre pelas ruas
da cidade, cada vez mais grosso e sereno.
A prostituta velha e zangada
é a pessoa mais feliz do mundo.
José Luís Peixoto
in non nova sed nove, nº7, dezembro 95
A prostituta velha e suja
despe-se à frente do polícia.
A estátua branca cai do pedestal.
O tempo escorre pelas ruas
da cidade, grosso e sereno.
A prostituta, cada vez mais velha,
esmaga o polícia entre as pernas.
No céu, voa um balão com
a forma da lua que
se arrasta vagarosamente,
sem olhar para baixo.
A prostituta amada e não-amada
toma um duche rápido.
O sol cresce em direcção
às gentes que correm nas avenidas.
A estátua branca, desfeita
no chão, chora.
O tempo escorre pelas ruas
da cidade, cada vez mais grosso e sereno.
A prostituta velha e zangada
é a pessoa mais feliz do mundo.
José Luís Peixoto
in non nova sed nove, nº7, dezembro 95
19 agosto 2010
16 agosto 2010
dois poemas
por José Luís Peixoto
Em troco nú, convida-me
a entrar. Deita-se no chão,
de porta fechada. Esquece-se
das ruas e das facas encharcadas.
As suas entranhas sujas,
ouvem vozes que lhes falam
desde muito longe.
Concorre em melancolia ofuscada
à doce solução. Estatela-se
no chão. De porta aberta.
Em tronco nú.
******
O teu pai, o meu padrasto,
enlouquecido completa-se.
Entre duas existências
redondas e aveludadas
liberta o elogio ocre
da morte.
Extenuado levantas-te
e agrides e agradeço-te.
O teu pai, o meu padrasto,
demente sem o dizer,
recorta-nos a vida
que não sabemos
se existe.
José Luís Peixoto
in
non nova sed nove nº 4, setembro 92
por José Luís Peixoto
Em troco nú, convida-me
a entrar. Deita-se no chão,
de porta fechada. Esquece-se
das ruas e das facas encharcadas.
As suas entranhas sujas,
ouvem vozes que lhes falam
desde muito longe.
Concorre em melancolia ofuscada
à doce solução. Estatela-se
no chão. De porta aberta.
Em tronco nú.
******
O teu pai, o meu padrasto,
enlouquecido completa-se.
Entre duas existências
redondas e aveludadas
liberta o elogio ocre
da morte.
Extenuado levantas-te
e agrides e agradeço-te.
O teu pai, o meu padrasto,
demente sem o dizer,
recorta-nos a vida
que não sabemos
se existe.
José Luís Peixoto
in
non nova sed nove nº 4, setembro 92
21 abril 2010
josé luís peixoto
começou a colaborar com a non nova sed nove em setembro de 92. primeiro com poemas na revistazine, mais tarde publicando o primeiro conjunto de poemas num livro: a pele do teu silêncio.
assim que viu este blogue, com a história da editora, josé luís peixoto ofereceu-se para escrever um texto. aparecerá aqui dentro de semanas. assim como os poemas que publicou na non nova sed nove.
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