santo apollinaire
(meu santo)
chuva de cascais. a cabeçorra de apollinaire entra pelo tugúrio e dói-me as costas, dói-me a paciência e o piano que toca dentro um nocturno em si maior (paulo salgado). e dói-me o piano nos olhos de apollinaire, cabeçorra entrapada de branco. e dói-me o inverno que chega e a nudez das árvores. chove em cascais - é isso. não é em santiago (que se lixe santiago). chove aqui. caraças.
chove
o
sentimento
dentro
da
casa
que
é
sala.
chove
dentro
dos
ouvidos,
das
letras,
dos
números.
paciência: cascais é o mar. cascais é o que está aqui por dentro da chuva. impermeável.
mar apollinaire em algum lado possível
como peixe-porco em volta do anzol
e que só não é bom porque é temível
e só não é ronha porque é sol.
meu santo, santo apollinaire apolíneo,
(entra na cabeça o som de palmas - o pianista ataca)
são guilherme circundante
(entra pelos ouvidos o convent garden - o pianista
ataca)
ruivo de raiva e azulíneo,
(chopin distrai-me, distrai-me sempre - o pianista
ataca)
amante de nenhum amor amante
(porquê chopin esta insistência nos agudos? o
pianista ataca).
de onde basta o silêncio
algum castigo de viagem,
basta o que não basta
e já é bastante.
que eu vou contigo,
apollinaire santo.
hei-de ir de olhos fechados
mas com paisagem.
e então
mordemo-nos com o cio dos lobos
e o usufruto da alcateia.
cuidado: saltam à arena
os bobos se o mar
se afunda na areia
mar que dissolve os braços
desbragado. cuidado.
consome verdes e azuis,
descuidado. cuidado.
mar que arrebenta na boca,
desbocado. cuidado.
mar que é merda e é vida,
desamordaçado. cuidado.
desAMORdaçado.
sacrifica o mar as algas na terra firme
- oceano guilherme, quem te redime?
eu não que de gripes não morro.
eu não que não me mancho nem me desmancho.
eu não que sonhos não percorro
sem bracque, sem jarry, sem socorro.
ah, temos obrigações:
temos a obrigação de destruir a arte
para que os homens não tenham a falsa consciência
da sua infelicidade.
temos a obrigação de destruir a forma
para que os homens não tenham o falso sentimento
da sua eventualidade.
temos a obrigação de destruir o som
para que os homens não tenham o falso
pressentimento da sua identidade.
temos a obrigação de destruir o discurso
para que os homens não tenham a falsa inocência da
sua imensidade.
temos a obrigação de destruir o silêncio
para que os homens não tenham a falsa comoção da
sua humanidade.
somos humanos, xiça, e
neste mar de corpos construídos
como cheiros domesticados
me escondo eu preso pelos sentidos.
mar por outros mares nunca navegado,
som à margem do rito dos ouvidos,
sons ganhos, sons perdidos, naufragados.
ó grande acrobata. ó mestre das cantigas.
num mundo construído de anversos
fica a realidade para além das lombrigas,
ficam povos para lá das conversas.
queria dizer-te: como tu tivemos muitos
(já passaram, ninguém se lembra.
e quem se lembrará de nós meu santo?
quem se lembrará das nossas dores, dos nossos
risos?
quem se lembrará de nós meu santo?
quem se lembrará de nós?
de nós no pó da história? de nós no pão da história?
que deus aí nos conserve
e que te conserve a ti na mesma memória).
tu és ilustre, tu és soberbo,
(agora o piano castiga a fantasia húngara, cansado dos oboés. e eu cansado. piano, piano, flauta doce, címbalos, contrabaixos, piano, maestro de tudo, que fazes aí? piano, piano, a tarde avança, quase noite, cigarros, bençãos, piano, fagote, neura, computador, cadeira, som, objectos, horas, horas, horas, tempo, tarde, noite, piano, cigarros,
apolinére mastiga as palavras sem
chuígame - turva-lhe a imaginação
e lá está o piano, o piano, o piano, o piano
tutítitutitutitutitutitutututututu vralllálálalá
alguém tosse
prrilipriliprliprlitutátutátutátutáprláprláprláTIITITITITI
oh dentro da cabeça, dentro da cabeça,
dentro da cabeça
meu santo)
ó grande desamado.
tu és poeta, tu és soldado
(que raiva, que raiva)
tão soberbo como o mar do outro lado,
tão soberbo como as rochas incapazes.
neste estádio, sem mais, a aparição de santo
apollinaire aos três sons,
a GRANDE REVELAÇÃO, assim mesmo em caixa
alta. e disse o santo:
a chuva que cai em cascais, já é esta diferente desta como é outra diferente
esta chuva que cai já não é esta chuva que cai
a chuva de cascais não é a chuva de birre, não é a chuva de juso
o agora não é o antes nem o depois nem o agora
o agora só é uma parte do agora, a micronésima parte.
aprendei que tudo é efémero e o efémero mais que tudo.
é preciso construir o efémero. com minúcia. com sabedoria.
sobretudo aprendei a destruí-lo.
estremunhei:
pescador de baleias
vai-te embora.
vai-te embora, rapaz, fazemos as pazes,
ó ilusionista, ó artista de circo,
ó corno, meu cantor de sentimentos.
faz uma pirueta de adeus,
dá um salto em frente, mas deixa-me por amor de
deus.
já tenho o que me baste,
pra quê mais tormentos?
desconto vidas,
mais curtas outras, umas mais compridas.
nem lhes meto dentro o sal,
mar salgado,
que quanto é melindre está começado
que quanto já é carne está sentido,
que quanto já é sangue faz sentido.
uma brisa aconchega-me o ouvido
e tu surges quando a tarde apodrece
porque apollinaire, meu santo, acontece.
a baba da tarde não tem perdão.
o mundo talvez. eu não.
(GRANDE FINAL: TCHAC.
meu santo apollinaire
meu compère)
nuno rebocho
santo apollinaire (meu santo)
non nova sed nove, cascais, fevereiro 97
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